Sobre sonhos, medos, ansiedade e melancolia

Esse talvez seja uns dos posts mais pessoais que eu já escrevi e isso me causa certa vergonha. Mas nem tô ligando muito pra isso agora.

Eu sempre tive uma vontade muito grande – ok, um sonho – de morar fora do Brasil e essa vontade se tornou ainda mais forte depois que eu viajei pro exterior.

O motivo pra isso é que eu simplesmente quero viver num lugar mais civilizado, mais seguro, onde eu não tenha que ficar me preocupando com qual celular comprar pra minimizar o prejuízo no caso de eu ser roubado. Esse é um exemplo extremamente besta e fútil, mas só quem já teve uma arma apontada pra si sabe que essa é uma das piores sensações do mundo.

Não que os países ditos desenvolvidos não tenham problemas de violência. Em todos há violência em maior ou menor grau, no entanto, em alguns deles, a punição pra quem comete crimes é severa e certa, o que não acontece no Brasil. Hoje, a violência é o principal motivo que me faz querer deixar o Brasil anteontem.

E então surgiu uma vaga pra um trabalho em um instituto de pesquisa em Portugal, mesmo instituto em que um amigo trabalha. Mas assim que eu soube sobre a vaga, comecei a sentir coisas que eu jamais imaginei que fosse sentir. Sair do Brasil foi uma coisa que eu sempre quis, mas quando a possibilidade real apareceu, não sei o que aconteceu.

Comecei a pensar em várias coisas. Minha mãe, minhas irmãs, meu pai, minha família… Eu ia embora e eles ficariam aqui… E se acontecesse alguma coisa e eu não estivesse aqui pra ajudar… – na época, eu namorava, e claro que eu também pensei em qual situação ficaríamos.

Pra qualquer pessoa ‘normal’, esses sentimentos seriam comuns, mas se tem uma coisa pela qual eu não sou reconhecido é pela minha delicadeza, pelo meu sentimentalismo, pela minha delicadeza. Ok, eu também não sou um monstro, mas não costumo ser tomado por esse tipo de sentimentos…

Passei alguns dias pensando nisso, mas organizei os documentos, apliquei pra vaga e fiquei esperando. Houve um pequena troca de emails e uma entrevista por telefone (nota: conversar pelo telefone com um português requer habilidades ninja). A entrevista foi marcada pra um dia, mas acabou acontecendo no dia seguinte. Nos minutos que antecederam a ligação (que não ocorreu), cheguei a ter dor de barriga de nervosismo. Não conseguia fazer absolutamente nada, quanto mais eu bebia água, mais a boca ficava seca… Pois bem, a entrevista ocorreu e no mesmo dia, fui informado de que eu fora escolhido para a vaga.

No momento em que eu li o email da notícia, uma tonelada de sentimentos esquisitos… Foi um misto de nervosismo, medo, alegria, realização, preocupação, ansiedade e muitas outras coisas que eu sequer sei nomear.

Liguei pra minha mãe pra avisar e a recepção foi a pior possível… o que me deixou ainda mais atordoado emocionalmente…

Passada essa fase do primeiro impacto. É hora de começar a cuidar da ida. Aí começa a busca frenética pelo menor preço de passagem, testando todas as combinações possíveis, saindo e chegando nas mais diversas cidades. Passar procuração. Tentar prever problemas para resolvê-los antes que não seja mais possível. Começar a vender as coisas.

Logo depois dessa fase, vem a melancolia, o momento em que você se dá conta que diversas pessoas que você gosta e convive diariamente não farão mais parte da sua vida, pelo menos de forma tão direta. Que daqui a algumas semanas, essas pessoas serão apenas avatares, fotos no orkut e lembranças agradáveis. Apesar da frase ter ficado extremamente triste, essa fase melancólica tem sido umas das coisas mais legais que me aconteceram nos últimos tempos. Esse processo foi capaz de pegar essas duas últimas semanas do ano e transformá-las em dias tão legais quanto eu jamais pude imaginar.

Papo furado em mesa de bar, conversas malucas, surpresas surpreendentes (!), encontrar pessoas legais totalmente fora do meu mundo, festas miaaaadas (mas nem por isso ruins), festas em que eu dancei pra caralho e me diverti! Celebrar a vida! (isso ficou totalmente playson) É a sensação de que um minuto que se passa ponderando se algo deve ser feito ou não, já é muito tempo desperdiçado. Chegar em casa sem o dia já ter amanhecido é imperdoável! Não há vergonha em ser ridículo, só de desperdiçar chances. É como se eu acordasse pra vida, ainda que tardiamente, e isso não poderia ser melhor!

Nesses últimos dias, não tenho pensado nem um pouco no dinheiro que vai ser gasto, somente se esse dinheiro gasto vai me proporcionar boas conversas, risadas. It is all about having fun, no matter what!

Dirigir devagar e sem rumo pela estrada da turismo, ponta negra, apreciando cada pedaço da paisagem é uma sensação indescritível. São pequenas despedidas dessas coisas, aparentemente, desimportantes mas que fazem parte de mim e que daqui a um mês, não terei mais.

Não é que a vida vá acabar, mas é como se uma etapa se encerrasse e outra totalmente desconhecida – e que me causa pânico –  se iniciasse. E por quê não aproveitar essa fase que se encerra o máximo possível? É só isso que eu tô tentando fazer.

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Sobre Arlen Nascimento
26 anos, Manaus.

2 Responses to Sobre sonhos, medos, ansiedade e melancolia

  1. Adrienne says:

    Esse me fez chorar. Sério.

    Por que quando eu te criticava, tu nunca me disseste isso? Hein?

  2. Olá Arlen. Sou namorado de uma “conhecida do twitter” de sua irmã.

    Nossa. Seu texto é uma mistura de sentimentos. Medo do desconhecido, tristeza por deixar sua família.
    Não tenho idéia da sensaçào que é ter uma arma apontada pra vc, nem sei o que é um assalto. Graças a Deus isso nunca aconteceu comigo mas nem por isso deixo de concordar com vc.
    Procurar um lugar com uma melhor segurança que aqui tbm é o meu desejo.
    Eu sou louco pra sair daqui, conhecer outros lugars, outras pessoas, outras culturas, vivenciar outros momentos. Ainda não tive uma oportunidade concreta e confesso não saber oq pensar caso isso venha a acontecer. Muito provavelmente ficarei igual a vc. Meio atônito, sentimental (nisso eu sou diferente de vc, sou muito sentimental rs), confuso. Passará um filme de toda a minha vida até o aquele momento. Amigos que fiz, situações que passei e que me fizeram mais forte, minha família, minha namorada.
    Faria o mesmo que vc tbm: aproveitaria cada momento com todos eles =).

    As suas frases: “um minuto que se passa ponderando se algo deve ser feito ou não, já é muito tempo desperdiçado.” e “It is all about having fun, no matter what!” ficarão gravadas na minha mente.

    Aproveite sua nova vida em seu novo local de moradia. =)

    o/

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