A difícil vida do bolsista

Considerando uma pessoa que entrou na faculdade aos 18 anos e um curso de quatro anos de duração, com 22 anos é possível já estar cursando o mestrado.

Todo mundo faz faculdade procurando ter um bom emprego pra ter uma vida boa. E, obviamente, aos 22 anos, os seus desejos não são os mesmos de quando você tinha 18 anos. A fase inicial do mestrado é um pouco frustrante porque você acabou de se formar mas não pode trabalhar, já que o bolsista não pode ter vínculo empregatício nem qualquer outro tipo de renda. Vá explicar isso pra sua família…

Ganhar pouco não é o maior problema, foda mesmo é receber atrasado, o que acontece um mês sim e o outro também. A bolsa da CAPES e do CNPq deveiram sair até o quinto dia útil do mês. A do CNPq sai direitinho, mas a da CAPES… já cheguei a receber na terceira semana do mês! Segundo consta, a culpa é do competentíssimo Departamento Financeiro da UFAM, já que a CAPES repassa o dinheiro pra UFAM na primeira semana do mês. Desnecessário dizer que o aluno não recebe nenhum tipo de compensação por esse atraso. Ele que se vire pedindo emprestado, entrando no cheque especial… A parte mais legal é quando você vai atrás das pessoas ‘reponsáveis’ pelo pagamento, é aquele jogo de empurra. Ou então eles dizem: ‘ah, não saiu, não? Então vai atrasar!’

A bolsa da FAPEAM merece um capítulo a parte. Oficialmente, a bolsa sai até o 15o dia útil do mês. Mas, adivinha? A bolsa referente a dezembro (que deveria cair lá pelo dia 15 de janeiro), só cai na metade de fevereiro. E a bolsa do mês do carnaval (por causa dos dias úteis) só vai cair quase dois meses depois. E, logicamente, o aluno não recebe nenhuma compensação por esse atraso, tendo que arcar com juros, multas, empréstimos e diversos transtornos.

Essa falta de dinheiro irrita profundamente, o que acaba tirando o foco do aluno.

Isso tudo porque eu moro aqui em Manaus e toda a minha família está aqui e posso contar com o eventual apoio deles. Imagina pra quem vem de outro estado e tem que pagar aluguel, comprar comida e não tem os parentes por perto pra ajudar.

Agora imagine essa situação pra quem está no doutorado (e ganha a fábula de 1800 reais por mês) e tem que sustentar uma família…

Com o valor da bolsa, além de ter que levar a vida, eventualmente comprar livros, comer e etc, você ainda tem que arcar com eventuais custos de uma doença – e acredite em mim, elas virão. Já vi gente de 20 e poucos anos com início de derrame e problemas cardíacos causados por stress.

Os professores geralmente tem o seguinte papinho: olha só, que legal, você vai receber só pra estudar! Não deixa de ser verdade, mas na prática, não compensa tanto assim.

Falando assim, parece que fazer mestrado é a pior coisa do mundo e só tem pontos negativos. Claro que não é assim. Mas decidir seguir uma carreira acadêmica é uma decisão muito difícil, mas que pode ser respondida com uma simples pergunta: eu quero fazer isso pra quê? É sério. Foi por causa dessa pergunta que eu decidi não me candidatar pro doutorado. E essa, provavelmente, foi a decisão mais acertada dos últimos tempos.

Sobre emendar graduação, mestrado e doutorado

Hoje, eu vejo algumas coisas que eu não via antes, talvez seja a maturidade. Mas quando se é muito novo (e inexperiente) a gente não tira todo o proveito das situações. Na graduação, quando se é mais novo ainda, a gente simplesmente despreza certas coisas por achar que aquilo é inútil e depois acaba precisando daquilo. No mestrado acontece a mesma coisa. A falta de experiência profissional nos faz fechar os olhos pra vários aspectos que poderiam ser explorados. Juntando isso com várias outras, temos o retrato da academia no Brasil: cheia de ideias revolucionárias, mas de costas pro mercado e sem dinheiro pra comprar tinta pra impressora. No entanto, felizmente, há honrosas exceções.

Retomando. O meu conselho é: se sua família tem boas condições financeiras e pode bancar alguns confortos que sua bolsa não pode, vá em frente. Faça até o doutorado. No entanto, se você não tem tantas mordomias assim, dê um tempo de um ou dois anos, vá trabalhar, faça uma reserva, prepare o espiríto e aí sim faça o mestrado.

You think you know but you have no idea

Pois bem, aos trancos e barrancos, você conclui a dissertação, defende e é aprovado. Só que a bolsa é paga até você completar dois anos de curso, daí pra frente é por sua conta. O que acontece é que nos últimos meses do mestrado, você não tempo pra absolutamente nada que seja escrever a dissertação freneticamente. No entanto, você precisa voltar a se preocupar com as coisas mundanas: emprego.

A fase da procura de emprego é uma das mais angustiantes. Não que seja exatamente difícil, mas é que você se vê altamente qualificado, cheio de conhecimentos que muita gente não tem e as empresas simplesmente não ligam pra isso! E da pior forma: baixos salários. E não podemos culpar as empresas malignas por isso. Nós somos mesmo altamente qualificados, só que o mercado tem outro ritmo e preza por muitas coisas que a academia ignora.

Outro dia conversava com um colega que dizia estar arrependido de ter entrado no mestrado, apenas disse pra ele que esperasse a época de procurar emprego pra ver o quanto ele iria ganhar inicialmente.

Fazer mestrado e doutorado é um investimento de longo prazo. Você investe 10 anos da sua vida (e da sua sanidade) pra começar a ganhar razoavelmente bem mais alguns anos depois e olhe lá. Se for colocar na ponta do lápis, não vale a pena financeiramente. É muito mais rentável (a médio prazo) fazer um MBA e um curso de gerência de projetos. Mas aí vai de cada um, tem gente que nasceu pra ser abnegado mesmo. 🙂

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Sobre Arlen Nascimento
26 anos, Manaus.

13 Responses to A difícil vida do bolsista

  1. Triste saber disso.

  2. Apenas uma palavra para o teu texto: Sensacional. Nào pela qualidade literária, ou pela complexidade epistemológica, mas pela simplicidade de causar identificação ao leitor. Bom mesmo. Tens razão, tu e o velho Sartre, somos fruto de nossas escolhas, no final somos um amontoado de oportunidades empilhadas ao vento.

  3. Stela says:

    Pois é….
    Estou agora terminando o meu doutorado e me vejo desesperada…..
    Me arrependo de não ter feito Licenciatura, isso sim. Poderia estar dando aula e ganhando um extra!
    Estamos já no dia primeiro de março e eu ainda não recebi a minha bolsa FAPEAM referente ao mês de janeiro.
    E o pior é que a gente sempre fica na dúvida…será que cancelaram a bolsa?
    Sempre acho que pode ser porque esqueci de entregar algum documento (acredite, são muitos).
    Mas terminando o doutorado a vida melhora…pelo menos a bolsa DCR, pós DOC e DTI aumentam o valor para 3 mil, chegando até a 4 mil.
    E se vc passar num concurso para dar aula na Faculdade pode ganhar até 6mil.
    Então não desanimem…..

  4. hellenbenigno says:

    Oi! tudo bem?! só tenho algo a lhe dizer não desvie de sua idéia original, sou o exemplo maior de tudo isso abandonei meus estudos por causa de um alto salário, não concluí mestrado enfim fui corrompida por ter exemplos de gente com doutorado mas já com filhos e família e cansados , hoje tenho experiência mas é algo que não me traz estabilidade, só pense a longo prazo… o retorno será só depois dos 30 anos e olhe lá!? mas vai chegar.. até lá relaxe e viva a vida,… só agora me estresso com as escolhas que fiz na vida… mas na época eu não entrei em crise..claro?! eu com 20 estava com salario de engenheira formada…mas depois eu paguei caro por isso.

    hellen

  5. Tiago says:

    Bastante informativo o texto viu?
    Moro em Goiânia, é interessante saber que estes esquemas estão na mesma situação e tem os mesmos mecanismos em todos os lugares 😦
    Estou no meio da graduação e há alguns paradoxos muito grandes, por exemplo, o CAPES pra selecionar bolsistas vê o rendimento acadêmico, mas na faculdade só que tem QI consegue alguma coisa, independentemente se tem média 10.

    Minha mãe depois de anos lecionando resolveu fazer um Mestrado e está sofrendo com academicismo, na época que ela se formou, quem fazia uma Pós-Graduação era uma pessoa muuuito foda, hj em dias as pessoas emendam a graduação na pós, sem experiência alguma profissional só pra ajudar nas estatísticas de pesquisa fazendo trabalhos que serão esquecidos em acervos.

    OBS: outra coisa, baixou uma portaria que permite agora trabalhar e ser bolsista ao mesmo tempo, desde que a atividade tenha a ver com a pesquisa. Procurem sobre o assunto 😀

  6. Samuel Aparecido Freire says:

    Cara, não sei como agradecer. Muito obrigado mesmo!
    Espero que continue postando coisas interessantes e ajudando as pessoas, e, que consiga alcançar seus objetivos também.
    Valeu!!!

  7. Marcelo says:

    O texto é muito bom e principalmente não fecha a discussão, então aproveito para contar minha história:
    Eu fiz o caminho inverso, larguei um emprego que não me despertava mais e aos 35 anos entrei no mestrado, ao término do mestrado passei em um concurso pra professor e depois de quatro anos voltei para fazer o doutorado.
    Eu sempre falo que fui louco ou irresponsável, largando tudo pra começar do zero, mas faria tudo de novo se fosse preciso.

  8. Fernanda says:

    Acabastes com meus sonhos de fazer doutorado e ter um carrão! kkkkkkkkkk

  9. Vanessa says:

    Belíssimo texto… Encontro-me numa situação na qual não tenho mais vontade de estar no mestrado. Falta um ano para eu defender, mas estou vivendo um inferno por não ter mais tesão de ficar estudando…sinto que não é o que eu quero pra minha vida. Quero desistir, mas a dúvida está me corroendo. Alguém pra me ajudar? Obrigada!

  10. Andréa R. B. says:

    Como algumas pessoas escreveram aqui, também estou fazendo o caminho inverso. Existem dois aspectos diferentes a se considerar na vida profissional: satisfação pessoal e financeira.
    Muitas vezes, ganhar bem não é o suficiente para te trazer satisfação pessoal.
    Isso, além das aptidões pessoais de cada um. Depois de trabalhar alguns anos na indústria, descobri que tenho aptidões que seriam muito melhor aproveitadas na área acadêmica do que na indústria.
    Enfim, é tudo uma questão da visão de cada um, mas respeito a sua também…

  11. Fabio says:

    Estamos em 2015… E a novela dos atrasos da FAPEAM está em cartaz no vale a pena ver denovo!!!! E o mais legal!!! Ninguem informa nada! Parabens pelo texto!!!

  12. Amanda says:

    Parabéns pelo texto dissertativo. Hoje é dia 15/01/2014, e nada da Fapeam pagar o valor da bolsa referente ao mês de Dezembro. É um enorme desrespeito com todos os alunos, teoricamente se você for comparar o lado financeiro, realmente não vale a pena, mas eu zelo pelo meu compromisso com o projeto no qual eu desenvolvo, realmente, é muito frustrante esses altos e baixos, daí percebemos que não somos tão valorizados como devemos ser. Isso porque a “querida” ”presidentA” disse que educação seria uma “prioridade”. Prioridade em quê?!

  13. esse texto e de 2010, mas sinto que a fapeam não mudou nada e as mesma coisas estão se repetindo, cade o pagamento das bolsas de dezembro 2014?

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