A monetização estragou a internet

Comecei a usar a internet dos vera em 2003, que foi quando eu entrei na faculdade. Antes disso, meu contato com a internet era esporádico, se dava quando eu ia na casa de um amigo ou nas lan houses. Lan house era um negócio caro nessa época, que aliás nem se chamava lan house, era cyber café. Tinha um perto de casa que a hora custava R$ 6! Seis reais pra mim naquela época era o orçamento semanal ou quinzenal! O curioso é que nesse cyber café, a cada x dias, você tinha direito a 15 minutos gratuitos. Claro que eu nunca cheguei a pagar 6 reais pela hora, só usava os 15 minutos, sempre. Via meu zipmail e alguns outros sites que eu tinha visto na televisão.

A partir de 2003, eu passei a ter acesso diário e infinito a internet. Entrava na laboratório e não saia sequer pra comer, ficava horas enfurnado lá dentro. E aí começou a descoberta da internet. Foi por essa época, que a internet começou a deixar de ter o caráter de internet (no sentido de redes de redes de computadores) e tomar a forma de web (rede de pessoas).

Também foi por essa época que os blogs nasceram. Eu lembro muito bem de ouvir o termo blog e não fazer ideia do que era. Lembro também de procurar no google o que diabos era um blog. Lia a definição, mas não entendia muito bem o propósito daquilo. A explicação definitiva veio com a etimologia da palavra: blog vem de web log, registro na web, um ‘espaço’ onde você ‘podia’ escrever qualquer coisa. Ok, entendi o termo mas continuava sem entender o propósito.

Um dia eu tava lá na casa do meu tio e vi um Zine por lá. Era a coisa mais tosca que eu já vi, xerocado, parte manuscrito e parte datilografado, repleto de erros de português, coisa típica da galera descolada da ala das humanas. No zine tinha um texto sobre a igreja universal (não consegui achar, infelizmente) que era sensacional. E logo embaixo tinha a fonte: um site chamado cocadaboa.com. O logo do site me chamou a atenção, um capetinha andando de mãos dadas com uma criança. Uns dias depois acessei o site e me entrei em contato com a internet moleca, a internet de raiz, uma internet que nunca mais se faria igual.

O cocadaboa era (e, a despeito de não ser mais atualizado, continua sendo) uma das coisas mais geniais da internet. A forma disruptiva (disruptive) que Mr Manson (o webmaster (!) do site) e outros malucos desocupados fazerem humor era algo inovador naquela época. O cocadaboa foi pioneiro não apenas na desconstrução daquilo que ainda nem estava construído mas também na postura que as grandes empresas viriam a adotar em relação a internet. Se hoje ainda se discute qual deve ser a postura das corporoções frente a internet, naquela época não se tinha ideia de como proceder. O cocadaboa recebeu diversas notificações desde a Coca-cola (http://www.cocadaboa.com/arquivos/008176.php) até Marcos Mion (http://www.cocadaboa.com/arquivos/007877.php). O slogan do site era ´Quer nos processar? Boa sorte, estamos hospedados na Eslovênia. Orgulho de ser esloveno´.
Lembro nitidamente de passar tardes inteiras lendo dezenas de páginas do cocadaboa, SACaneie, Calúnia & Difamação, Os textos insanos do Mr Manson, o Bolão Pé na cova e muitos outros, consulte o vasto arquivo e divirta-se. Ainda tem o livro Transpiaui, uma peregrinação proctológica, aventura de Mr. Manson pra checar a existência do Piaui (o Piauí é o Acre dele).

Não tenho certeza se cheguei a ler tudo, mas li quase tudo! O que fazia o cocadaboa legal era que o objetivo do site inteiro era divertir. E só! Ainda não havia monetização. Provavelmente, o termo problogger ainda nem existia. O objetivo do site era tirar sarro da única maneira possível: ofedendo E denegrindo.

É claro que havia outros sites engraçados. Eu hein, Kibeloco (que ainda era no blogspot!) e o cudojudas.com (hoje, só na way back macinhe http://web.archive.org/web/*/http://cudojudas.com), o mais fodão e sem br! (o que mais tarde se tornou o lamentável – e corporativo – Judão de hoje…). A falta de noção que se via nesses sites era uma coisa que fazia a gente se identificar e querer virar amigo dos caras. O Cu do Judas tinha um sessão em que as leitoras mandavam fotos dos peitos com ‘cu do judas’ escrito neles!

Outro blog que merece destaque e até hoje mantém a linha ´tradicional´ é o Hoje é um bom dia. Já passei dias lendo o blog de cabo a rabo enquanto eu deveria estar estudando. E por causa da idade do Kid, rola toda uma identificação.

Essa internet divertida e sem compromisso começou a ruir quando alguém pensou que era possível ganhar dinheiro com os blogs. Se eu tenho gente que me lê, por quê não colocar um outdoor aqui no meu espaço? Aliado com o surgimento (ou a popularização) de ferramentas como o Google Adsense e os programas de afiliados de sites de venda, os blogs acabaram se tornando esse amontoado de links patrocinados entremeados por técnicas de SEO.

A despeito de ainda existirem blogs excelentes, infelizmente a grande maioria de hoje se preocupa apenas em atrair público com os chamados cata-corno do google, em subir no pagerank, com monetização, em fazer páginas inteiras com sugestões de compra no submarino e etc. O que se tem hoje são blogs com opinião pasteurizada e puramente corporativas, blogueiros opiniosos mas que não tem coragem de reclamar do calote que tomou pra não ficar mal com os futuros patrocinadores. Quando não é isso, são blogs dando verdadeiras lições de moral sobre o uso correto da ‘ferramenta internet’ ou das ‘mídias sociais’. Apesar de alguns excelentes posts, o Contraditorium é um exemplo triste disso.

Uma iniciativa que tentou trazer de volta a época áurea da internet (mas que fracassou miseravelmente) é o interbarney.com. O objetivo era chamar blogueiros que fizeram sucesso nesse primeiro hype da internet. Apesar da empreitada não tão bem sucedida, tem muita coisa boa lá. Vale a olhada.

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Sobre Arlen Nascimento
26 anos, Manaus.

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