Idolatria por CDs

(texto sem revisão, estou com sono)

Quando eu fui descobrir o que era um cd, acho que era 1992 ou 1993, não lembro bem.

Lembro que fomos eu, meu pai e minha madrasta comprar um aparelhinho de som no Amazonas Shopping nessa época aí. Era um som simples, daqueles que tinham cd, fita e rádio. Aí meu pai comprou o som e dois cds, “As quatro estações” do Legião Urbana e algum cd do Tom Petty. Não conhecia nenhum dos dois artistas.

Aquilo era tudo novidade pra mim. Nem sabia da existência daquele disquinho que tinha música dentro. Era uma loucura.

Lembro do cuidado extremo pra pegar no cd, tinha que lavar as mãos antes. Eu nem mexia no som. E cd era um negócio caro e nem se vendia em qualquer lugar.

O primeiro cd que eu ganhei foi dos Mamonas Assassinas. Aí eu só podia escutar na casa do meu pai, pois na casa de mamãe não tinha tocador de cd. O som que tinha lá era Aiko, todo de metal com toca fita, rádio e amplificador e duas caixinhas de som.

Com o passar do tempo, fui ganhando mais cds e fazendo uma pequena coleção.

Naquela época pré-internet o único jeito de consumir música era pelo rádio ou pelos cds. A melhor rádio que havia naquela época era a Transamérica, que depois fora substituída pela Jovem Pan. Substituída, mesmo. Saiu a Transamérica e entrou a JP na frequência 104,1.

Por uma questão de mercado, as lojas não vendiam as músicas que a gente queria escutar e a única forma de ouvir essas músicas era através de cds. E como eu não era rico (e não sou até hoje, aliás), não podia comprar os cds das bandas que eu queria ouvir.

Ter algum cd incomum lhe conferia status. Exemplo: cds do nirvana, sepultura, metallica. Quem tinha esses cds era visto com certa reverência. “Caceta, o cara tem todos os cds do nirvana!”. Se fosse uma pessoa próxima, você poderia emprestar por uns dias, ouvir o máximo possível e devolver. Se você tivesse o maquinário, você poderia gravar uma fita cassete, mas isso era um privilégio para poucos.

E era assim que se consumia as músicas que não tocavam nas rádios. Convencendo os donos dos cds a lhe emprestar algum, ouvir e devolver.

O empréstimo de cd era coisa muito séria. Só se emprestava pra pessoas de absoluta confiança, casos de extravio (o horror! o horror!) eram tratados com penas que eu nem sei quais, pois nunca passei por isso, mas as sançõesn eram horríveis.

É daí que vem a idolatria, a paixão pelos cds. Quando a gente descobria que o fulaninho tinha algum cd que você estava desejando há tempos, a gente tratava de arrumar alguma amizade com ele, só por causa do cd, claro.

Mas hoje em dia, a maneira de como se consome música é outra. Em questão de minutos, você baixa a música, vê o clipe, vê o show, aprende a letra, vê os covers, trocentas versões ao vivo, bootlegs, aprende a tocar todos os solos e pode até bater um papo com o artista pelo twitter.

Hoje, a idolatria pelos cds é uma coisa muito bocó. Os cds se tornaram obsoletos e, pior,  desnecessários. Cd, hoje, é só um negócio que além de ocupar espaço e poeira, vai ser destruído pelos fungos em algum tempo.

Eu não consigo descrever o que eu sinto quando eu vejo alguém na tv mostrando sua coleção de cds, mostrando que tem ciúmes dos cds, mostrando os cds raros, os cds preferidos. Botando o cd pra tocar na vitrola. É um ritual que perdeu o sentido. Quem ainda põe um cd pra tocar, senta e vai ouvir? É um negócio que não faz mais sentido hoje em dia. Passou. Move on.

Pior que tudo isso é comprar cd. Gastar dinheiro com um negócio que eu vou utilizar por apenas 10, 20 minutos (o tempo que leva pra ripar o cd) e vai ficar lá ocupando meu espaço e pegando sujeira. É claro que sou a favor de que o artista seja recompensado pelo seu trabalho e já há algumas soluções pra isso. E comprar cds é a menos eficaz de todas.

Lembro do dia em que peguei todos os meus cds (não são muitos, menos de 50) – que já estavam me atrapalhando, pois só pegavam sujeira e eu tinha que limpá-los sempre – e os guardei numa caixa. E desde lá, nunca mais precisei deles. Senti uma pontinha de tristeza pois o que tem ali é dinheiro. Claro que não é só dinheiro, são lembranças também. Lembranças dos momentos que eu vivi e que foram acompanhados por aqueles cds que, de alguma maneira, fizeram parte daquilo.

Como o acústico do Nirvana, o primeiro cd de “rock” que eu tive. De entender o que aquele cd representava na carreira do Nirvana, que foi a despedida do Kurt. Que naquele cd quase não havia hits, justo no momento em que eu mais queria ouvir os hits. “Porra, esse cd não tem Lithium, Smells like teen spirit e etc”. Mas é um disco absolutamente foda, que termina de forma visceral com “Where did you sleep last night”.

Ou o “Angels Cry”, do Angra, que eu ganhei de um grande amigo. O cd que tinha “Carry on”! Não havia alegria maior no mundo do que poder ouvir Carry on a hora que eu quisesse. E ainda poder conhecer todas as outras músicas fantásticas desse disco maravilhoso (falando sério, baixem e vão ouvir. Meu filho vai ouvir esse disco desde a gestação).

Hoje, eu tenho ao meu alcance qualquer música, de qualquer lugar do mundo, em qualquer lugar que eu esteja. O ritual se perdeu, mas a emoção não (estou em dúvida se há vírgula ou não aqui). A satisfação e o prazer de escutar uma música que se gosta permanecem. Apenas o meio que se perdeu, ou mudou.

A única exceção para essa regra de que é possível encontrar qualquer música do mundo na internet é para o F. Cabocante, não tem em lugar nenhum! Eu tinha mas apaguei. Peguei com um ex-colega de trabalho que foi à serviço para o delicioso município de Benjamin Constant. Quem tiver aí, por favor avise, vou buscar em qualquer lugar.

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Sobre Arlen Nascimento
26 anos, Manaus.

2 Responses to Idolatria por CDs

  1. Pingback: A decisão racional de não participar de amigo oculto « Pai d’égua

  2. Wandressa Pinzón says:

    Cara, fiquei meio surpresa agora e feliz também. Tava por aqui tentando encontrar alguma música engraçada na internet, do F. Cabocante. Eu pensei que só eu lembrasse dele. Morria de rir quando o ouvia na rádio. Boas lembranças me acompanham agora (Risos).
    Abraços
    Wandressa Pinzón, Tabatinguense!

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