Ah, a Alemanha…

Bom, chega de posts sobre Marrakech, acho que ja falei demais e não disse nada, mas ok.

Continuando com a minha primeira saga internacional, depois de Marrakech segui para a Alemanha, mais especificamente Tübingen, que fica a 30km de Stuttgart. O objetivo de eu ir pra lá, era estabelecer contato para futuras parcerias entre o nosso grupo de pesquisa aqui e o grupo de um colega de doutorado do meu orientador.

A oportunidade de ir pra Alemanha surgiu de última hora, coisa de uma semana antes da minha viagem. Quando me foi proposto, não pensei nem meia vez, paguei a remarcação da passagem do meu bolso (100 doletas) e apenas a poucas horas antes do embarque, comprei a passagem pra Alemanha.

Ah, a Alemanha… Ir pra Europa sempre foi o meu sonho, a Alemanha então…nem se fala.

O primeiro choque cultural foi a união européia na prática. Eu peguei o visto na Espanha (na volta de Marrakech) e pronto! O vôo pra Alemanha é, na prática, um vôo doméstico! E é mesmo, chegando em Stuttgart nada de imigração, nem apresentação de passaporte, nada!

O segundo choque cultural foi a companhia aérea. A german wings é uma das maiores low costs de lá (é da Lufthansa). Essa empresa tem promoções onde vc paga apenas as taxas de embarque (infelizmente não peguei uma dessas…) e outras promoções onde vc compra o direito de ir pra algum lugar que eles vão escolher! Vc compra uma passagem pra um pool de destinos, aí eles escolhem um desses destinos e vc vai!
Pois bem, comprei a passagem pelo site com um certo receio, afinal, eu nunca tinha ouvido nada a respeito da companhia. Quer escolher o assento? Pois não, 5 euros por trecho!
Mas, com certeza, o maior choque é o (não-)serviço de bordo. O lanchinho é pago, mermão! Naquele bolso do banco, tem umas revistas e um cardápio com os preços. Os preço são um pouco altos se vc não é europeu e/ou sua moeda não é o euro. Pouca gente compra, mas a galera não se faz de rogada e leva o seu próprio lanchinho. O cara do meu lado pegou a mochila, tirou uma baguete e uma coca-cola e se fartou. Tomei uma nota mental e fiz exatamente o mesmo na volta.

Pra nós brasileiros, é meio chocante ver o lanche ser vendido dentro do avião. Acho que é porque a gente ainda é acostumado com aquela época áurea da aviação onde se tinha talheres de verdade, comida em porções generosas e não apenas barrinhas de cereal…

Mas eu, sinceramente, preferia que as empresas daqui adotassem logo essa estratégia. Melhor ter uma opção, ainda que paga, do que opção nenhuma! Nunca vou me esquecer de um vôo Manaus-São Paulo da Gol. O vôo saiu às 4 da manhã e a Gol não teve a hombridade de oferecer um cafézinho preto!! Nada, só barrinha de cereal, suco e refrigerantes…

Outra coisa que eu notei na german wings foi o excelente espaço entre as poltronas. Muito maior que o da TAM, por exemplo. Eu conseguia ficar bem confortável e ainda sobrava uns 3 dedos de espaço. O motivo disso? Simples, concorrência. No aeroporto, se vê uma infinidade de companhias aereas e se todas elas oferecem um preço semelhante, ganha quem oferece mais conforto. E como no Brasil existem apenas duas companhias, elas fazem o que querem… tanto com o preço como com o espaço entre as poltronas…

O meu anfitrião, Christian, foi me buscar no aeroporto. Agradeço ele até hoje por isso, pois na hora em que eu cheguei, ou eu morria em 60 euros no taxi, 90 euros num hotel ou dormia no chão do aeroporto!
No caminho pra Tübingen, o terceiro choque cultural: as (quase) autobans. O Christian tem uma BMW, tá um pouquinho castigada, mas, porra, é uma BMW!! E foi minha vez de BMW!! Na estrada, tome pé embaixo!!! Chegamos a singela marca de 160km/h!!! Nesse momento, olhava para a estrada e lembrava muito do Brasil…idênticas! As estradas são perfeitas, perfeitas! Apesar de essa estrada não ser uma autoban, ela foi construída como tal, ou seja, é uma autoban na concepção. Ah, mesmo a 160km/h, tinha gente que passava muito mais rápido por nós.

Chegando no hotel, o Christian me pagou uma cerveja e lá fui eu provar uma autêntica cerveja alemã. Eu não bebo, mas achei a cerveja bem mais forte e amarga.

No dia seguinte, fui até a universidade para fazer a apresentação do nosso grupo de pesquisa e o quinto choque cultural: a universidade. A universidade de lá é linda, dá gosto de ver. É um prédio antigo por fora, sabe aqueles filmes teens americanos de universidade? Pois é, é igualzinho. Por dentro, parece uma empresa. É tudo super organizado, bonito, funcional. Salas espaçosas, salas de reunião super equipadas, uma copa muito bem equipada e abastecida, porta com controle de acesso, etc e etc.

Na hora do almoço, o Christian perguntou o que eu queria comer, só não respondi ‘mermão, qualquer coisa é lucro’ porque eu não faço idéia de como dizer isso em inglês…:p
Mas acabamos indo no ‘bandejão’ de lá. Mermão…o RU de lá parece um shopping!! É lindo! Eu, incrédulo, perguntei se aquilo tudo era só o restaurante e ele falou que sim. Tem dois andares, um hall imenso, umas áreas pra ficar eguando e umas placas eletrônicas que mostra as opções de comida do dia. No RU de lá tem comida vegetariana!! Eu comi um negócio lá que eu não sei o que é, mas tava bom, era carne de porco com uma rodela de abacaxi em cima e macarrão, tinha salada mas eu não peguei. Ainda tem molhos, azeite, sobremesa e etc. As porções são servidas mas são bem generosas. E, sim, eles reclamam… O pessoal que tava lá comigo ficou admirado porque eu gostei da comida! Coitados…deixa eu apresentar o real RU pra eles… Eu não sei bem o preço porque eu não paguei…mas o que eu vi é que custa em torno de 5 euros – o que pra eles é caro.

Bom, a cidade, embora pequena, é espetacular. Eu andava na rua e olhava aquelas paisagens totalmente alemãs (um morro gramado e aquelas casinhas) e pensava: caraca, tô na Alemanha!!

Lá, só se atravessa na faixa (mas nem sempre), só se anda pela calçada (isso sempre!) e algumas vezes o caminho pra pedestre é por dentro da floresta.

E o quinto choque cultural: o sistema de transporte público. Os ônibuses lá tem horário pra passar. Ok, lá no ICHL tem uma placa com os horários dos ônibus, mas lá o ônibus passa no horário! E milimetricamente no horário! Todas as paradas tem um nome e plaquinhas para cada um dos ônibus que pára lá. Nas plaquinhas se encontram o itinerário e os todos os horários pra cada linha. É altamente intuitivo. A passagem de ônibus custa 2 euros, mas pode-se comprar um ticket pro dia inteiro, o tagesticket que custa 4 euros, e andar a vontade. No ônibus não tem cobrador, só o motorista e uma máquina que vende os tickets. O motorista só dirige o ônibus e não regula ninguém. Ou seja, vc pode entrar no ônibus e andar de graça, ninguém vai impedir vc de fazer isso. Confesso que fiz 3 vezes, mas nas outras vezes comprei o tagesticket pra evitar qualquer tipo de problema. Aleatoriamente, existe fiscalização nos ônibus, o controle, os caras vêm e pedem o seu ticket, se vc não tiver é multado, segundo me disseram, em 40 euros!! Os estudantes pagam uma taxa lá e têm direito a andar de ônibus o semestre inteiro.

Esse sistema baseado na honestidade se repete nos trens também, vc chega lá e senta sem ninguém pra controlar nada. Mas também rola fiscalização aleatória.

Outra pessoa que eu agradeço é o Ricardo. Um brasileiro que mora e estuda lá. Eu ia ficar na casa dele, mas acabou nem precisando. Mas mesmo assim, ele me levou pra dar umas bandas por lá e me deu várias dicas. Coisas que eu jamais descobriria sozinho. Ele também me deu uma singela caneca de chopp de 1 litro! Ele tem uma pequena coleção desses ítens, que ele adiquire nos bares da vida, mas shhhhh…os donos dos bares não sabem… hehe 😛

Os telefones públicos lá aceitam cartão telefônico, moedas e alguns até cartão de crédito! Os números dos celulares de lá são enormes! São uns 12 números!

Outra experiência chocante foi a ida ao supermercado. Queria comprar água e alguma besteira pra comer e fui procurar um. Eu já tava psicologicamente preparado pra gastar em euro. Inclusive eu desenvolvi uma técnica pra gastar em euro. É assim, não converta nada, trabalhe com unidades monetárias. Por exemplo: a água custa 1 unidade monetária e não R$ 2,60, sacou? Essa é uma dica prática, se vc for ficar convertendo tudo, vc enlouquece e morre de fome.

Voltando. Entrei no supermercado preparado pra lapada. Mas eis que tive uma surpresa: as coisas na Alemanha são muito baratas!! Mas muito baratas mesmo! Até se vc converter pro real são mais baratas que aqui!! Eu via o preço de algumas coisas e não acreditava que custava só aquilo. Eu ficava procurando o preço ‘de verdade’… eu conferia o produto com a etiqueta várias vezes e só podia ser verdade. Exemplos: a água de 5 lts custava pouco mais de 1 euro; a lata grande de pringles custava 1,79 €!!! 1,79€ uma lata grande de pringles!! Uma barra média de chocalate Milka custou 0,89€!11 Um caixa de suco de laranja de 1,5 litros custa 0,79€!!!!!!!!!! Isso mesmo, 79 centavos de euros um caixa de suco de laranja de um litro e meio!! Uma caixa de Del Vale de apenas 1 litro custa quase 4 reais!!! Um pacote com 10 fatias de queijo cheddar custou 0,89€! Um iogurte grande de morango com pedaços de morango custa 0,29€!!! Tem vinho de 2 euros!!! Eu não acreditava!
O Ricardo me falou que o supermercado dele do mês dá cerca de 30 euros, sendo que metade ele compra só de cerveja… hehe

Porém, dizem, eu não vi, que carne lá é muito caro!! 10 euros um pequeno pedaço.

Nem preciso me dizer que me fartei de pringles, né?

Ah, Nutella – ô troço bom!! – é bem baratinho, um pote enorme custa 1 euro e pouquinho.

Mas quando eu fui no supermercado da primeira vez, eu me dei mal porque fui de mãos abanando. Lá, as sacolas são pagas e a maioria da galera leva a sua de casa. Na segunda vez, porém, levei minha mochila 😀

Essa parada de ecologia por lá é uma coisa levada a sério. Tudo por lá tem uma conotação ecológica, mesmo que seja uma coisa sem pé nem cabeça, eles colocam ecologia no meio. A cidade é super arborizada, vários parques e, claro, não tem lixo no chão!!! Mas eu vi um alemão jogando lixo no chão, foi só uma tampinha de garrafa, mas é lixo!

Preciso falar alguma coisa da sensação de segurança lá? Um dia lá, eu voltei da casa do Ricardo, à noite, sozinho e por dentro da floresta! Sem nenhum problema, nada, nada! É claro que eu fiquei cabreiro, afinal de onde eu venho nem Jack Bauer junto com Chuck Norris andam sozinhos tarde da noite. Coloquei o passaporte dentro da cueca e fui tranquilamente para o hotel.

Aí vem o canalha ufanista: “Ah, mas lá não tem o nosso calor humano!”
Olha, se vc gostou desse texto até aqui, é bem provável que vc o deteste a partir daqui.

Eu, sinceramente, troco a minha cota de calor humano e alegria de ser brasileiro por segurança, transporte eficiente e pringles a 1,79€!

Pra mim que já fui assaltado duas vezes e a última delas com um revólver apontado pra minha barriga, andar na rua com a tranquilidade de que não vai me acontecer nada, não tem preço!! Também não tem preço ter um link de 16Mbps em casa – na verdade tem, 30 euros por mês!!!

Muita gente diz que os europeus, em especial os alemães, são muito frios, mal educados. Eu não sei se era o meu deslumbre ou sei lá o quê, mas eu achei os alemães super educados e simpáticos. É claro que na parada de ônibus, eles jamais chegarão pra vc e dirão “maninha, marresse onibu tá demoranu hj, né?”. Eu pelo menos detesto esses small talks.

Fotos para ilustrar (tô com preguiça de colocar no meio do texto) no flickr

Apesar de ter muita coisa aí, esse post tem continuação.

PS: pode xingar, dizer que eu não sou patriota, que isso e aquilo outro. Antes das perguntas “pq vc não vai pra lá, então?”, adianto-me: eu vou, só não sei quando. Mas um dia eu vou. E citando aquele sábio provérbio chinês: “A saída pro Brasil é o aeroporto”.

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