Investir em Ciência & Tecnologia não é só dar bolsa

É muito comum ver as propagandas dos governos anunciando que um determinado ano foram oferecidas centenas de bolsas de estudo de mestrado e doutorado e que também no mesmo ano centenas de doutores foram formados, tudo com o incentivo de determinada agência de fomento.

Tudo isso é anunciado, com muito alarde, no pacote de investimentos de Ciência & Tecnologia. E é – seria – uma prova de que tal governo está preocupado com o desenvolvimento tecnológico e que por isso está investindo 1 kilometro de asfalto em C&T.

É verdade que se não fosse esse investimento, esses mestres e doutores não se formariam porque é muito difícil conciliar uma ativadade profissional com um mestrado, com um doutorado, então, beira o impossível. Só que dar bolsa é apenas o começo de um investimento sério em C&T.

De que adianta o Amazonas formar 100 doutores por ano (é um chute), se esse povo não tem onde trabalhar? E pior, se eles não vão ganhar um salário compatível com a formação? Não adianta de quase nada.

Mas o problema não está só no Amazonas, está no Brasil inteiro, que não tem como absorver todo esse contigente de doutores. Aí o que vai acontecer é que esses doutores, formados a peso de ouro, vão acabar prestando um concurso público qualquer que só exija graduação pra serem analistas de sistemas (caso real). Absolutamente nada contra, cada um sabe onde o seu calo aperta, mas é foda!

Dar bolsas e formar doutores é apenas o primeiro passo pra investir verdadeiramente em C&T. Primeiro de tudo, tem que tornar a academia atraente. Não conheço nenhuma pessoa que se sinta atraída a ganhar uma bolsa de 1800 reais pra tomar na cabeça durante quatro anos fazendo doutorado. Depois, deve haver oferta de emprego com salários compatíveis. Ninguém quer ganhar R$ 3000 depois de passar quatro anos ganhando R$ 1800.

E o principal, e também o mais difícil: que esse pessoal faça alguma coisa de útil pra pelo menos tentar pagar de volta o que foi investido neles. Esse é um problema grave. Essas bolsas pagas pelo governo, são dinheiro público, proveniente de impostos. Não é justo que depois de obter uma formação de excelência, doutores voltem pras suas universidades e iniciem viagens lisérgicas que não vão dar em lugar nenhum, que nunca vão mostrar nenhum resultado.

No entanto, aí já entramos em outra questão. Não tenho dados concretos, mas tenho certeza de que muitas descobertas já aconteceram pelo mais puro acaso, em coisas em que não necessariamente relacionadas. Ou seja, por pura ciência, estava se pesquisando uma coisa sem pé nem cabeça e acabou se descobrindo outra de fundamental importância. E é esse tipo de coisa que me mostra que essas duas vertentes (a ciência ‘de resultados’ e a ciência ‘lisérgica’) devem ser ponderadas.

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A difícil vida do bolsista

Considerando uma pessoa que entrou na faculdade aos 18 anos e um curso de quatro anos de duração, com 22 anos é possível já estar cursando o mestrado.

Todo mundo faz faculdade procurando ter um bom emprego pra ter uma vida boa. E, obviamente, aos 22 anos, os seus desejos não são os mesmos de quando você tinha 18 anos. A fase inicial do mestrado é um pouco frustrante porque você acabou de se formar mas não pode trabalhar, já que o bolsista não pode ter vínculo empregatício nem qualquer outro tipo de renda. Vá explicar isso pra sua família…

Ganhar pouco não é o maior problema, foda mesmo é receber atrasado, o que acontece um mês sim e o outro também. A bolsa da CAPES e do CNPq deveiram sair até o quinto dia útil do mês. A do CNPq sai direitinho, mas a da CAPES… já cheguei a receber na terceira semana do mês! Segundo consta, a culpa é do competentíssimo Departamento Financeiro da UFAM, já que a CAPES repassa o dinheiro pra UFAM na primeira semana do mês. Desnecessário dizer que o aluno não recebe nenhum tipo de compensação por esse atraso. Ele que se vire pedindo emprestado, entrando no cheque especial… A parte mais legal é quando você vai atrás das pessoas ‘reponsáveis’ pelo pagamento, é aquele jogo de empurra. Ou então eles dizem: ‘ah, não saiu, não? Então vai atrasar!’

A bolsa da FAPEAM merece um capítulo a parte. Oficialmente, a bolsa sai até o 15o dia útil do mês. Mas, adivinha? A bolsa referente a dezembro (que deveria cair lá pelo dia 15 de janeiro), só cai na metade de fevereiro. E a bolsa do mês do carnaval (por causa dos dias úteis) só vai cair quase dois meses depois. E, logicamente, o aluno não recebe nenhuma compensação por esse atraso, tendo que arcar com juros, multas, empréstimos e diversos transtornos.

Essa falta de dinheiro irrita profundamente, o que acaba tirando o foco do aluno.

Isso tudo porque eu moro aqui em Manaus e toda a minha família está aqui e posso contar com o eventual apoio deles. Imagina pra quem vem de outro estado e tem que pagar aluguel, comprar comida e não tem os parentes por perto pra ajudar.

Agora imagine essa situação pra quem está no doutorado (e ganha a fábula de 1800 reais por mês) e tem que sustentar uma família…

Com o valor da bolsa, além de ter que levar a vida, eventualmente comprar livros, comer e etc, você ainda tem que arcar com eventuais custos de uma doença – e acredite em mim, elas virão. Já vi gente de 20 e poucos anos com início de derrame e problemas cardíacos causados por stress.

Os professores geralmente tem o seguinte papinho: olha só, que legal, você vai receber só pra estudar! Não deixa de ser verdade, mas na prática, não compensa tanto assim.

Falando assim, parece que fazer mestrado é a pior coisa do mundo e só tem pontos negativos. Claro que não é assim. Mas decidir seguir uma carreira acadêmica é uma decisão muito difícil, mas que pode ser respondida com uma simples pergunta: eu quero fazer isso pra quê? É sério. Foi por causa dessa pergunta que eu decidi não me candidatar pro doutorado. E essa, provavelmente, foi a decisão mais acertada dos últimos tempos.

Sobre emendar graduação, mestrado e doutorado

Hoje, eu vejo algumas coisas que eu não via antes, talvez seja a maturidade. Mas quando se é muito novo (e inexperiente) a gente não tira todo o proveito das situações. Na graduação, quando se é mais novo ainda, a gente simplesmente despreza certas coisas por achar que aquilo é inútil e depois acaba precisando daquilo. No mestrado acontece a mesma coisa. A falta de experiência profissional nos faz fechar os olhos pra vários aspectos que poderiam ser explorados. Juntando isso com várias outras, temos o retrato da academia no Brasil: cheia de ideias revolucionárias, mas de costas pro mercado e sem dinheiro pra comprar tinta pra impressora. No entanto, felizmente, há honrosas exceções.

Retomando. O meu conselho é: se sua família tem boas condições financeiras e pode bancar alguns confortos que sua bolsa não pode, vá em frente. Faça até o doutorado. No entanto, se você não tem tantas mordomias assim, dê um tempo de um ou dois anos, vá trabalhar, faça uma reserva, prepare o espiríto e aí sim faça o mestrado.

You think you know but you have no idea

Pois bem, aos trancos e barrancos, você conclui a dissertação, defende e é aprovado. Só que a bolsa é paga até você completar dois anos de curso, daí pra frente é por sua conta. O que acontece é que nos últimos meses do mestrado, você não tempo pra absolutamente nada que seja escrever a dissertação freneticamente. No entanto, você precisa voltar a se preocupar com as coisas mundanas: emprego.

A fase da procura de emprego é uma das mais angustiantes. Não que seja exatamente difícil, mas é que você se vê altamente qualificado, cheio de conhecimentos que muita gente não tem e as empresas simplesmente não ligam pra isso! E da pior forma: baixos salários. E não podemos culpar as empresas malignas por isso. Nós somos mesmo altamente qualificados, só que o mercado tem outro ritmo e preza por muitas coisas que a academia ignora.

Outro dia conversava com um colega que dizia estar arrependido de ter entrado no mestrado, apenas disse pra ele que esperasse a época de procurar emprego pra ver o quanto ele iria ganhar inicialmente.

Fazer mestrado e doutorado é um investimento de longo prazo. Você investe 10 anos da sua vida (e da sua sanidade) pra começar a ganhar razoavelmente bem mais alguns anos depois e olhe lá. Se for colocar na ponta do lápis, não vale a pena financeiramente. É muito mais rentável (a médio prazo) fazer um MBA e um curso de gerência de projetos. Mas aí vai de cada um, tem gente que nasceu pra ser abnegado mesmo. 🙂

O que é mestrado?

Vou iniciar um série de posts sobre mestrado, baseado na minha própria experiência, obviamente. Vou falar do que é, como é, dificuldades que EU enfrentei.

Nesse primeiro post vou falar sobre o que é o mestrado.

Existem dois tipos de pós-graduação: lato sensu e strictu sensu.

A pós-graduação lato sensu é famigerada ‘pós’. É aquela que se ouve muito falar por aí, ‘fulano faz pós’, ‘vou fazer a minha pós’. Essa pós-graduação é uma especialização e não muda o seu título. Exemplo, se você for formado em Administração e fizer pós-graduação lato sensu em Comércio Exterior, você vai ser ‘Fulano de tal, formado em administração e pós-graduado em comércio exterior’. O MBA é uma pós-graduação lato sensu. Outra característica é que a pós-graduação lato sensu não lhe credencia pra outros níveis. Você pode fazer 10 pós lato sensu, mas vai continuar sendo pós-graduado.

A outra linha é a pós-graduação stricto sensu, na qual se incluem mestrado, doutorado, pós-doutorado e o que houver – se houver mais alguma coisa. Essa pós-graduação vai credenciando a pessoa a níveis mais elevados, e.g., pós-doc > doutorado > mestrado. Outra diferença fundamental é que a pós scricto sensu é mais voltada para a academia (pesquisa) enquanto a pós lato sensu é mais voltada para o mercado.

E o mestrado?

Poderia dizer que é uma espécie de introdução ao mundo acadêmico. É um período de dois anos em que você propõe e desenvolve um trabalho com relevância em alguma área de pesquisa do seu interesse. Os dois anos podem ser prorrogados um pouquinho, o que não é aconselhável. É importante dizer que o interesse pela pesquisa esteja presente desde a graduação, caso contrário, fica complicado.

O tema da pesquisa do mestrado deve ser relevante, mas não necessariamente inédito. Por exemplo, alguma face inexplorada de algum assunto. Um exemplo mais claro de um tema relevante: fazer um estudo profundo e classificar algoritmos de roteamento de acordo com performance, escalabilidade e etc. Um tema inédito seria propor um novo algoritmo de roteamento para resolver os problemas encontrados no estudo anterior.

Como funciona?

No mestrado você tem um orientador e uma proposta que, no futuro, será a sua dissertação. Geralmente, durante o primeiro ano, se pagam algumas disciplinas e o segundo ano é dedicado a pesquisa.

No ato da inscrição para o processo de seleção do mestrado, você anexa a sua proposta de trabalho que será avaliada pelo colegiado. Na verdade, você não escolhe o orientador e sim o contrário. É no momento da seleção que cada professor decide quais alunos vai orientar.

Dependendo do programa, a seleção é basicamente análise de curriculum (histórico, cartas de recomendação, produção científica, etc). Outros programas além da análise curricular aplicam uma prova. Tenho uma certa reserva em se aplicar uma prova pra fazer um curso de mestrado, mas divago.

Há dois regimes: dedicação parcial e exclusiva. A dedicação parcial se aplica àqueles que dividem o estudo com o trabalho, o que exige uma carta de liberação por parte da empresa. Na dedicação exclusiva, a sua profissão é ser estudante.

Aluno de dedicação exclusiva, geralmente, ganha uma bolsa de estudos cujo valor varia um pouco de acordo com a agência de fomento, mas que fica em torno de 1200 reais. Com essa bolsa, o aluno fica proibido de ter vínculo empregatício sob pena de devolução das bolsas recebidas corrigidas e processo. E pra funcionário público, o desconto é em folha!

O problema é que não tem bolsa pra todo mundo. O número de bolsas é limitado por instituição e conseguir novas bolsas é muito difícil. Então os alunos com os melhores curriculuns terão prioridade sob os demais na hora em que tiver uma bolsa sobrando. E assim sucessivamente até que todos tenham bolsa (o que pode não acontecer). Ou seja, as bolsas vão ‘passando’ dos alunos antigos pros mais novos e graças a burocracia, o intervalo entre a implementação da bolsa até o dinheiro na conta, é de uns 3, 4 meses. Portanto, prepare-se para o inverno.

Das obrigações

Além de ter que passar nas disciplinas obrigatórias e optativas (2 reprovações = jubilamento) com média >= 7. Você tem a ‘obrigação’ de publicar artigos científicos. Os artigos são atestados de que o trabalho que você faz vale a pena, já que a avaliação é feita pelas referências da área.

Quando um artigo é aceito por uma conferência, o correto é um dos autores ir defender (apresentar) o artigo senão pega mal. No entanto, ir apresentar um artigo é tão difícil quanto publicá-lo. Considerando uma conferência realizada no exterior, fica quase impossível para o próprio aluno arcar com as despesas de passagem e estadia. A universidade, segundo contam, só paga alguma coisa para funcionários. Então restam duas opções: as agências de fomento e projetos.

A FAPEAM (Fundação de (des)Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas) tem um programa chamado PAPE (Programa de Apoio a Participação em Eventos) que periodicamente fornece passagens a alunos e pesquisadores. Mas, o PAPE tem uns critérios meio esquisitos pra seleção dos beneficiados. Por exemplo, dá centenas de passagens pra graduandos irem pro SBPC, não dá uma passagem internacional pra um mestrando ir pra conferências altamente relevantes, dá passagens pra estrangeiros irem pra conferências em sua terra natal! (aqui, tabela Eventos Internacionais) e pretere quem já está com o trabalho aceito.

Passagens por meio de projetos são as mais ‘fáceis’, caso algum professor tenha algum projeto com dinheiro sobrando e o artigo seja relevante pro projeto ou aluno que publicou participa do projeto, é quase uma obrigação do professor bancar a viagem. Ah, sim, o pagamento de diárias pro aluno também é possível.

O crescimento que a participação em uma conferência de alto nível proporciona ao aluno é incomensurável. E, de certa forma, é possível conhecer o mundo só publicando artigos. 😀

Próximo capítulo: a difícil vida do bolsista

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